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sábado, 15 de abril de 2017

As oportunidades não acontecem?

As oportunidades não acontecem, você as cria”. Essa frase foi citada pelo chef e fotógrafo do Arizona Chris Grosser. Não consegui identificar o contexto onde foi aplicada a frase, mas lendo-a isoladamente, embora ela esteja no ranking de frases motivacionais da internet não concordo muito com ela.

A palavra oportunidade vem do nome do Deus Romano Portunus, e está relacionado ao termo porto, que é a passagem entre o mar e a terra firme, a porta de entrada da cidade para os navegantes. Oportuno era o vento favorável que empurrava para o porto. Mantendo a figura, um marinheiro que quisesse navegar para determinada cidade deveria aguardar a oportunidade de que os ventos fossem favoráveis à sua navegação. De nada adiantaria içar as velas em direção à cidade se os ventos estivessem contrários. Que tipo de oportunidade mágica poderia ser criada nesta situação? Por mais que possam existir embarcações com uma tecnologia mais avançada (não entendo nada de modernidade marítima), certamente foram melhorias adquiridas pelo senso de oportunidade, ou seja, mais uma vez a adaptabilidade a uma condição existente e não o contrário.

Partindo para terra firme, quem está na lista dos desempregados a espera de uma oportunidade de emprego, também não deve ficar muito motivado ao ler a frase de Grosser tendo seus diplomas pendurados na parede, suas experiências anteriores relacionadas num currículo ao lado do seu segundo idioma e um pilha de cadastros em anúncios sem retorno e entrevistas recusadas. A fórmula da frase sugere o que? Não espere a oportunidade de emprego crie uma microempresa e contrate seus colegas de entrevista. Simples assim?

Claro que tem muita gente nessa fila esperando o mundo acabar em barrancos para morrer encostado. Currículo cheio de cursos incompletos, hibernando longos 10 anos de experiência na carreira júnior, envia cadastro para as empresas com o currículo no corpo do e-mail e sai das entrevistas sem pedir feedback pois está certo que o problema era da entrevistadora. São casos a parte. A grande maioria está no caminho certo, possuem objetivos sólidos, estão se preparando continuamente, mas a oportunidade não aparece.

Só para finalizar, imaginemos um funcionário de uma empresa que identificou que no seu próprio cargo existem formas melhores de se executar a mesma tarefa, mas muitas vezes implica em uma substituição tecnológica (a empresa utiliza tecnologias obsoletas no mercado), ou mesmo uma forma diferente de conduzir uma rotina, onde precisaria de mais tempo e espaço além do habitual. Ambas as situações precisariam que os chefes imediatos comprassem a ideia e lhe dessem a oportunidade de agir como tal. Nada de diferente poderia ser criado fora do momento oportuno.

"Aproveite as oportunidades que a vida lhe oferece. Encontre os oásis em seus desertos.
Os perdedores veem os raios.
Os vencedores veem a chuva e com ela a oportunidade de cultivar".

Augusto Cury


quarta-feira, 12 de abril de 2017

Reforma da Previdência e Big Brother Brasil

Viralizou na última semana nas  redes sociais uma mensagem de indignação pública relacionando o programa Big Brother Brasil a Reforma Previdenciária:


"Votos para BBB 112 milhões em 48horas...
Votos contra a Reforma da Previdência menos de 2 milhões... Em dois meses
Entendem porque estamos nessa situação, alienação total.
Copie e cole....POVO OMISSO É BRASILEIRO"

Bom, li isso algumas vezes até que fiquei curiosa sobre o seu fundamento. Afinal, eu não assisto BBB para saber a quantidade de votos por hora de um paredão e eu também não votei contra a Reforma da Previdência. Aliás onde está ou esteve disponível para votação pública a decisão da Reforma Previdenciária? Em lugar nenhum.


Qualquer causa que tenha os canais do Twitter, Site oficial e SMS para votação, terá um número de participações maior que uma causa que nem aberta a votação pública está. Não é nenhuma particularidade do Big Brother Brasil.


Fiquei pensando de onde saíram esses 2 milhões em dois meses da mensagem. Ocorreram manifestações públicas contra a reforma. Duvido que se a decisão do paredão do BBB dependesse de manifestações participaria alguém além dos familiares mais próximos ou quem estivesse disposto a aparecer  na Globo. E olhe lá! Manifestação não é voto. 


Existem também algumas iniciativas de abaixo assinado pela causa, mas exatamente por serem movimentos dispersos também não têm chance de atingir os mesmos resultados do reality, mesmo que sejam somados no final. 


Os interessados, se já não receberam links por mensagem, procurem no Google e escolha uma vertente, ou para ser lógico participe de todos, pelo menos vai fazer volume de assinatura de todos os lados. Mas consideremos o fato de que nem todos vão buscar todos os movimentos disponíveis para assinar.


Logo a mensagem é muito sem sentido e incoerente. Os votos do BBB não implicam em omissão do povo pela Reforma da Previdência simplesmente por que nada tem a ver os alhos com os bugalhos. 

sábado, 25 de março de 2017

Olha o foco!

Quem já ouviu esse termo? Toda expressão recorrente me instiga uma análise mais criteriosa, pois geralmente não é aquilo que pretendem representar. Começando pela palavra foco. Já escrevi sobre o conceito duvidoso da expressão foco na carreira, e indo um pouco mais longe, percebo que há um grande perigo em ser muito focado.

Existe foco da dengue, foco da lesão, foco de incêndio. Já dizia a lei de Kepler: onde há fumaça há foco, digo, a proximidade dos raios de luz que passam por uma lente convergente (focada) podem incendiar certos materiais. Quem já matou uma formiga com uma lupa e um fósforo aceso (ou isqueiro) sabe o que estou falando.

Roberto Justos, em sua autobiografia Construindo uma vida disse: “Se concentrar sobre o que é particular é só uma forma de miopia” e “o detalhe muitas vezes mente”. Justus ainda acrescentou: “Sem ter a visão do todo, é impossível estabelecer com segurança como e onde me situar no conjunto de tudo”.

Fácil ilustrar esse assunto lembrando o polêmico lançamento do aplicativo Pokemon GO desenvolvido pela startup Niantic, Inc., onde os usuários focados em encontrar seus pokemons virtuais perdiam completamente a noção periférica e muitas vezes panorâmicas, com muitas notícias de acidentes e mortes. Na época o jogo foi muito criticado, mas na verdade o app literalmente trouxe uma realidade aumentada das coisas.

Será que nosso trabalho não é uma espécie de Pokemon que nos faz acordar e automaticamente já ficar alerta e sair em busca das obrigações diárias, sem nenhum propósito maior além do salário que por sua vez é o Pikachu, o monstrinho mais famoso e desejado por todos? Será que estamos em nossas rotinas presos a pokestops achando que recarregar as energias para uma nova caçada é tudo que temos para hoje? Será que também não estamos ignorando uma imensidão de possibilidades mundo afora, limitando nossos relacionamentos, lazeres, e várias outras coisas?

Muitas vezes quem diz “olha o foco” não quer dizer absolutamente nada. Apenas por um condicionamento acha que contrariar a visão linear é um risco. Risco na verdade ela corre se todos os focados olharem para ela e algum esclarecido inusitadamente lançar um feixe de luz em sua direção, o que, no sentido figurado, quer dizer que ela vai se queimar diante do contexto geral, pois seu cálculo de atitude aceitável estava limitado a uma visão muito restrita e distorcida da realidade.

"Não há clareza possível se não se enxergar o todo" (Justus).