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sábado, 25 de março de 2017

Olha o foco!

Quem já ouviu esse termo? Toda expressão recorrente me instiga uma análise mais criteriosa, pois geralmente não é aquilo que pretendem representar. Começando pela palavra foco. Já escrevi sobre o conceito duvidoso da expressão foco na carreira, e indo um pouco mais longe, percebo que há um grande perigo em ser muito focado.

Existe foco da dengue, foco da lesão, foco de incêndio. Já dizia a lei de Kepler: onde há fumaça há foco, digo, a proximidade dos raios de luz que passam por uma lente convergente (focada) podem incendiar certos materiais. Quem já matou uma formiga com uma lupa e um fósforo aceso (ou isqueiro) sabe o que estou falando.

Roberto Justos, em sua autobiografia Construindo uma vida disse: “Se concentrar sobre o que é particular é só uma forma de miopia” e “o detalhe muitas vezes mente”. Justus ainda acrescentou: “Sem ter a visão do todo, é impossível estabelecer com segurança como e onde me situar no conjunto de tudo”.

Fácil ilustrar esse assunto lembrando o polêmico lançamento do aplicativo Pokemon GO desenvolvido pela startup Niantic, Inc., onde os usuários focados em encontrar seus pokemons virtuais perdiam completamente a noção periférica e muitas vezes panorâmicas, com muitas notícias de acidentes e mortes. Na época o jogo foi muito criticado, mas na verdade o app literalmente trouxe uma realidade aumentada das coisas.

Será que nosso trabalho não é uma espécie de Pokemon que nos faz acordar e automaticamente já ficar alerta e sair em busca das obrigações diárias, sem nenhum propósito maior além do salário que por sua vez é o Pikachu, o monstrinho mais famoso e desejado por todos? Será que estamos em nossas rotinas presos a pokestops achando que recarregar as energias para uma nova caçada é tudo que temos para hoje? Será que também não estamos ignorando uma imensidão de possibilidades mundo afora, limitando nossos relacionamentos, lazeres, e várias outras coisas?

Muitas vezes quem diz “olha o foco” não quer dizer absolutamente nada. Apenas por um condicionamento acha que contrariar a visão linear é um risco. Risco na verdade ela corre se todos os focados olharem para ela e algum esclarecido inusitadamente lançar um feixe de luz em sua direção, o que, no sentido figurado, quer dizer que ela vai se queimar diante do contexto geral, pois seu cálculo de atitude aceitável estava limitado a uma visão muito restrita e distorcida da realidade.

"Não há clareza possível se não se enxergar o todo" (Justus).


domingo, 19 de março de 2017

Organização

A palavra Organização vem do latim e tem a mesma origem da palavra Orgão, e significa “aquele que funciona”. Incrível como as coisas perdem seu real sentido na medida em que o tempo passa! Para perceber melhor o que quero dizer, imagine se nossos órgãos funcionassem da forma como a gente se “organiza” no cotidiano para atingir certos objetivos?

O número de mortes por falência múltipla de órgãos estaria no topo do ranking das maiores causas de morte do mundo. Quando um órgão não está nas condições ideais de funcionamento ele pede ajuda. Como? Pelos sintomas. Febre, mal estar, enjoo, dor. Geralmente tomamos remédio para aliviar o mal estar, afinal precisamos estar ativos para organizar nosso dia a dia, senão ainda saímos como braço curto.

Enquanto isso nosso amigo órgão continua sem condições de funcionar direito e seu único meio de comunicação (os sintomas) não estão passando o recado como deveriam devido as drogas administradas. Até que um dia ele piora de vez e o que acontece? Somos internados e temos que parar na marra com nossas atividades.

Nós até tentamos fazer nosso organismo trabalhar no mesmo ritmo duvidoso que nós, mas ele não aceita menos do que a condição ideal. Ou é isso ou a morte. E se o jogo virasse e todas as cabeças da pirâmide organizacional e familiar começassem a agir com a mesma estratégia de sobrevivência que os órgãos: o ideal ou nada? E não falo de ideal em seu sentido ofuscado, de ideologia, algo como um sonho longe do real. Mas no sentido de melhor forma.

Como seria se os sintomas apresentados quando as coisas não estão em condições de funcionar de modo adequando não fossem vistos com desconforto, como corpo mole e sim com a devida atenção e imediatamente entrar em processo de diagnóstico do que está acontecendo e mobilizar os demais órgãos e recursos para “curar” o problema ao invés de desgastar aquele membro e consequentemente perder força no corpo em geral?

Nem sempre é possível realizar um transplante (substituir um órgão por outro). E quando dá nem sempre a qualidade é a mesma. E o organismo tem uma tolerância para transplantes. Chegará uma hora que nem substituir resolverá a debilidade gerada pela forma atual de funcionamento.


sábado, 18 de março de 2017

Delação Premiada


Delação premiada virou moda no judiciário, e os principais delatados são políticos e os principais delatores os empresários que financiaram os políticos. Já pensou se delação premiada vira modinha nas empresas também? Como seria se todas as ações ilícitas insufladas por alguém de crachá, que evidentemente não aparece na cena, mas que põe seus funcionários laranja para representar, viriam a ser descobertas se um sujeito qualquer com poder para tal desse a oportunidade para uma delação “premiada”. Nunca antes na história do país um dedo duro foi tão bem recompensado, mas o Brasil entraria em colapso se o cenário privado copiasse o modelo público.

Assim como acidentes de avião, demissões também acontecem. É a crise! Fazer o que?

Talvez uma diferença que vale atenção é que a delação premiada é uma forma de proteger o delator que também está envolvido até as tampas no caso, mas por abrir o jogo ganha algumas vantagens. Numa empresa o único que se sentiria desejoso de delatar alguém seria exatamente aquele que caiu de gaiato na trama, e não tinha nada a ver com a história. Para isso mesmo ele foi envolvido, para pagar o pato. Igual ao Corinthians: demorou, mas no final acabou pagando o Pato!*


*Alusão irônica a venda do passe do jogador Alexandre Pato para o Villarreal em 2016.

sábado, 4 de março de 2017

O Mistério das Bermudas

Não, não me refiro ao Triângulo das Bermudas!

Desde os tempos em que o Jornal Nacional era apresentado por Cid Moreira e Sergio Chapelin e o mito de que os jornalistas usavam bermuda por trás da bancada, existe um burburinho em torno desta peça de vestuário no local de trabalho. Lembrando que o boato da bancada do JN ocorreu por volta dos anos 80 a 90.

Aí chegamos no século XXI e a moderna empresa americana Google virou referência no modelo casual de seu ambiente de trabalho e no vestuário dos colaboradores. Um dos lemas da empresa é “você pode ser sério sem usar terno” é um mantra das novas empresas que estão mudando suas culturas nesse sentido.

Em nenhum lugar achei a associação de não usar terno com usar bermuda, mas recentemente vi um alarde sobre isso nas redes sociais se referindo à mudança de cultura da empresa Gerdau. Entre as mudanças do ambiente físico sem paredes dividindo salas por hierarquia, realidade presente também no ambiente da holding brasileira Alelo, horários flexíveis e Wi-fi livre, a Gerdau apostou na permissão do uso de bermudas.

Muitos sindicatos inclusive estão lutando para dar esse “direito” aos trabalhadores. É isso mesmo produção! Querem institucionalizar o uso de bermudas no ambiente de trabalho. Fico me perguntando onde surgiu essa ideia de que a vestimenta interfere na qualidade do trabalho ou na competência da pessoa. Dá para ser sério sem terno, e ser patético com terno. Tanto faz. O fato é que está se criando um estigma negativo sobre o vestuário social “estilo banco” que pouco tem a ver com a capacidade de trabalho do ser humano.

O máximo de vantagem é para quem sente muito calor, mas particularmente me sinto mais a vontade com social e salto alto, embora minhas competências funcionem de forma idêntica com qualquer roupa que eu estiver usando. Dizem que o ambiente informal estimula as pessoas a dizerem a verdade. Só se for “nossa como sua perna é fina!”. Piadas a parte, o hábito de falar a verdade depende mais do caráter do que da vestimenta.

Será que William Bonner seria um melhor editor chefe do JN se levantasse da sua bancada de bermuda para falar da previsão do tempo com a Maju? Para quem tá com tempo é um caso a se pensar.