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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Dá um trocado?

Num passado não muito distante, podia associar a frase “Dá um trocado” à rotina de um pedinte de rua. Hoje em dia tem comerciante assaltando chapéu de mendigo em busca de moedas! A situação está tão crítica que tem loja perdendo a venda para não perder o troco.

Fui há algumas semanas comprar um objeto barato, R$ 2,00 era o preço. Eu só tinha uma nota de R$ 20,00 para pagar. Quando mostrei minha nota a vendedora parecia que estava vendo o coisa ruim; me olhou com cara de “pelo amor de Deus me dê uma moeda” e respondeu sem que que eu pudesse raciocinar: “Não troca não moça”. Não questionei, nem me dei ao trabalho de procurar um trocado na minha bolsa, tamanha má vontade daquela infeliz.

Esse lugar era um comércio no centro da cidade e, no entanto, os responsáveis têm um pensamento bastante primitivo. Para ilustrar o que quero dizer, lembro-me de outra situação, onde levei alguns sapatos para consertar numa sapataria humilde, num bairro isolado da cidade. Seu Joaquim um senhorzinho idoso, cabelo bem branquinho e sua esposa, num local simples cuidavam da netinha especial enquanto consertavam sapatos. Deixei os sapatos de um dia para o outro e quando fui buscar ocorreu algo semelhante ao caso anterior, uma nota sem troco.

Nesse dia só estava a senhorinha e a neta, quando viu que não teria troco ela pediu-me para aguardar que ela ia na vizinhança conseguir troco. E ali fiquei fazendo companhia para a netinha especial que fazia guizos e sorria de longe. Até que a senhora voltou com meu troco, entregou os sapatos prontos e impecáveis e se despediu com uma educação ímpar.

Não precisa ter CNPJ nem placa estampada com nome bonito para prestar um serviço de qualidade. Não sou banco central para ficar fornecendo moeda, sou consumidora e quero meu direito de pagar pelos produtos que me disponibilizam para venda! Se eu estivesse com disposição eu citaria naquela situação o art. 39, IX do Código de Defesa do Consumidor, que diz que é prática abusiva “recusar a venda de bens ou a prestação de serviços, diretamente a quem se disponha a adquiri-los mediante pronto pagamento”, mas meu humor não estava muito amigável.

Sai dali e tratei de trocar meus R$ 20,00 em outro estabelecimento, senão teria que pagar o ônibus com ele, e ai provavelmente eu teria que voltar a pé para casa.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Sua Excelência Roberto Jefferson!

Existe um texto na internet do Palestrante Mario Persona, publicado na ocasião do depoimento de Roberto Jefferson para o Conselho de Ética do Mensalão, que explica com inteligência a personificação do “ser político” na figura do presidente do PTB. O texto chamado O que aprendi com Roberto Jefferson traz com riqueza de detalhes os dons de comunicação e oratória do deputado, recomendo a leitura. 

Sempre achei “Boby Jeff” espetacular, no mesmo sentido apresentado pelo autor, ou seja, um sujeito que sabe o que fala, independente da verdade ou não do seu conteúdo. Quando o Mensalão teve seu boom e a mídia trouxe essa figura exótica à tona, esse homem me chamou atenção em meio aquele bando de políticos senso comum. Até o Maluf que conseguiu se reeleger após o seu discurso do “rouba, mas faz”, perde feio para o Boby. 

Posso desconfiar o que muitos pensam sobre o que é ser político. No entanto, dependendo de quem usa o termo soa meio estranho. Diante do professor Boby, qualquer um que pretenda agir politicamente não passa de um cínico, espertinho metido a besta, que no segundo discurso sobre o mesmo assunto se contradiz e não sabe mais amarrar o seu próprio enredo; sai do ritmo da própria dança quando a luz acende; ridiculariza, menospreza ou diminui o próximo para se manter “acima” das circunstâncias. 

Já que saber dar um somebodylove é pré-requisito de sobrevivência neste mundo (corporativo ou não) vamos pelo menos aprender com as pessoas certas! Não basta ser esperto, é fundamental ser inteligente. Até que se tenha inteligência e treino adequado, acho muito pouco prudente querer agir politicamente. Não é o tipo de coisa que basta seguir um conselho, senão corremos o risco de sermos criaturas patéticas, encenando e nos achando um máximo por convencer uma maioria de espertinhos. Até esbarrar com uma minoria de inteligentes...

Geralmente essa maioria de espertinhos não apita nada, não influencia em nada, e não vai te ajudar a evoluir na vida, nem na carreira. Em massa fazem um pouco de barulho, mas diante do inteligente e sagaz serão os primeiros a virarem a casaca. Acho válido o esforço de aprender a se comunicar com as pessoas, ser convincente independente do que esteja realmente pensando em relação ao que está a sua volta, saber argumentar com verdades, chamar as autoridades de excelência mesmo que preferisse tratá-las como mereceriam (aqui soa muito falso, mas é acertado). Mas repito, é questão de treino. Tenhamos senso do ridículo! Se não tem os argumentos certos, fale a verdade ou cale-se. Pode doer, mas sua alma vai ficar tranquila, e seu caráter a salvo.

No Conselho de Ética do Mensalão, Roberto Jefferson era da minoria inteligente diante de um monte de espertinhos políticos sedentos por sua queda. Saíram todos com o rabinho entre as pernas, pois mesmo admitindo as suas culpas, e depois sendo preso e tudo mais (no histórico da novela) nunca antes na história do país um canastrão foi tão autêntico e admirável.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Copo meio cheio

A teoria do copo meio cheio diz que se um copo está com água pela metade o ponto de vista positivo seria considerá-lo meio cheio e o negativo meio vazio. O meio vazio dá a entender que pode continuar esvaziando, sugere escassez, o meio cheio ao contrário sugere abundância, vai continuar a encher.

Não sou pessimista, mas percebo que a expressão “pense positivo” carrega uma crença meio tola da realidade. Contra todos os fatos negativos, fica sempre alguém na ilusão do positivismo. Existe um provérbio português mais antigo do que essa onda positiva new age que diz que “contra fatos não há argumentos”.

Sempre que alguém aponta os fatores negativos de algo logo é criticado e reorientado com a velha teoria. Quando na verdade a intenção é prever os impactos que diante de uma boa análise dos fatos será inevitável, principalmente se for ignorada e não tratada.

O copo meio cheio sugere que com a mesma proporção com que ele pode esvaziar ele pode continuar enchendo, só que ao continuar enchendo ele pode chegar a outro termo popular que é o da gota d’água, ou seja, a derradeira gota que transborda o copo. O fato crítico que supera os limites da tolerância.

Por essa perspectiva a escassez do copo meio vazio consome menos água (tempo, sofrimento, esforço) do que o copo meio cheio capaz de transbordar. Diante do contexto, tratava-se de um risco previsto e não considerado. Não adianta olhar para um copo cheio pela metade sem saber o que aconteceu para que chegasse ali. O copo estava furado? Alguém estava bebendo? Está há tanto tempo ali que estava evaporando? Sem crítica sobre os fatos o otimismo não leva a nada.

Copo meio vazio: se consumir esvazia.

Copo meio cheio: se não consumir e continuar enchendo transborda

Copo meio cheio / copo meio vazio: se não consumir vira foco da dengue.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Malandramente

Há não muito tempo quando ouvia o termo politicamente correto, entendia como algo certo dentro dos padrões morais aceitáveis. Depois passou a ser algo pejorativo, o cidadão politicamente correto era o “certinho” e não o correto, ou melhor, era o cara que pensava dentro da caixa, e por isso mesmo estava contra a correnteza da sociedade. O seu certo já não era mais o único padrão aceitável. Hoje politicamente correto não é nem uma coisa nem outra que mencionei acima. Se focar apenas o termo “politicamente” o novo conceito praticamente se auto explica. Eureka! Já diria Arquimedes de Siracusa.

Quem já assistiu a uma sessão do senado, ou da câmara, das mais acaloradas, onde os digníssimos tratam-se por vossa excelência, quando, por si estariam xingando-se até a vigésima geração de suas mães, entende o que é o politicamente correto. Quem já assistiu há de concordar o quão patético são estas cenas e esses vocabulários, quanta falsidade é apresentada naquele ambiente, mas é a mais bela demonstração de que aqueles homens e mulheres honram o título de políticos. Fazem uma coisa e pensam outra, não que fosse melhor eles agredirem-se como quereriam. Dá para ser educado sem ser dissimulado. 

Saindo um pouco dessa realidade que não nos representa (...) o correto politicamente falando também se enquadra no malandro. O malandro é o político em fase embrionária, é o esperto que atua fora dos palanques, nas escolas, universidades, empresas. Malandramente ele escolhe o prático e não o certo, até descobrirem que algo deu errado ele já ganhou as glórias e o aperto de mão do gerente; depois alguém pega para concertar.

Malandramente ele reforça em seus discursos para os outros evitarem os erros que ele mesmo comete, mesmo porque ninguém faz alarde dos seus erros, e para todos os efeitos estão rolando avisos públicos em seu nome da forma correta de se fazer. Que prenda! Quem vê de longe até tem como exemplo e comemora suas vitórias. Quanto reconhecimento!

Na política ele almeja a presidência, na escola almeja o cargo de líder da classe, ou no máximo a confiança necessária para garantir que seu nome sempre estará estampado em trabalhos que nunca fez. Na empresa ele almeja o cargo se sênior, quando não merece nem o pleno. Age como se estivesse fazendo uma coisa, quando na verdade está fazendo outra. Tudo isso lhe parece correto, é a estratégia ideal que o leva aos seus objetivos. E de fato leva. Mas a que preço? 

Na definição de James. C. Hunter: "Caráter é o compromisso de fazer o melhor, mesmo quando você não deseja". Os objetivos serão alcançados, mais cedo ou mais tarde, num ambiente ou no outro, para uns de modo mais fácil, agindo malandramente, para outros não. A velocidade das conquistas dependerá da força do caráter somada a medida do trabalho.

Suas ações viram seus hábitos, que viram seu caráter, que vira seu destino”.